Em seus 134 minutos de reprodução, Pantera Negra nos apresenta família, honra, raízes e, claro, a impressionante nação de Wakanda do Universo Marvel. E como história de origem, nos faz conhecer um pouco de alguns dos personagens importantes para a construção do herói africano, que apareceu pela primeira vez nos quadrinhos em 1966, e desde então vem conquistando seu espaço.

A medida que o filme se abre, ​somos inseridos na história de Wakanda​ que, para o mundo exterior, é um dos países mais pobres do mundo. Mas um olhar através de seu mecanismo de camuflagem revela uma metrópole próspera e vibrante, de avanços tecnológicos incontáveis, isso tudo graças ao Vibranium, um mineral raro e cobiçado.

A primeira apariação de ​​T’Challa traz o herói em ação, para “resgatar” ​Nakia​ (Lupita Nyong’o), já que, após a morte de seu pai, T’Chaka (John Kani), ele será coroado em breve. Nesse momento importante para ele, já podemos ver um pouco mais da cultura do país, pois no ritual de coroação, o futuro rei pode ser desafiado e, caso perca, o trono é passado ao vencedor – o que vale a atenção, já que justamente esse contexto tem muita relevância para o desenrolar da trama. E, no geral, o povo de Wakanda possui costumes e crenças, que são apresentados ao espectador com calma e naturalidade. Isso é uma das coisas mais interessantes do longa, que nos mostra a nação mais avançada do mundo, mas que ainda assim continua mantendo e respeitando os costumes de seus antepassados.

Em pouco tempo como rei, ​T’Challa já é retirado de sua ‘zona de conforto’, levado a um perigoso cassino coreano, e com ele, Nakia e Okoye (Danai Gurira), líder das Dora Milaje – a guarda pessoal do rei de Wakanda. Inicialmente envolvendo o vilão caricato Ulysses Klaue (Andy Serkis), um comerciante de armas ilegal da África do Sul, que tem uma ligação com o mercenário norte-americano Erik Killmonger (Michael B. Jordan). Os dois têm um precioso artefato de Wakanda, feito de “Vibranium”, que pretendem vendê-lo a um Agente da CIA (Martin Freeman). O sucesso ou o fracasso de sua missão são uma chave para o futuro de Wakanda

Klaue – o Garra Sônica – foi importante para a introdução dos acontecimentos, mas, de modo geral, serviu mais como um alívio cômico, fazendo bem o seu papel – tanto dentro da história como na ótima atuação de Andy Serkis -, não ocupando muito tempo de tela – o que, particularmente, considerando o tom do enredo, foi de um bom senso inquestionável do diretor Ryan Coogler.

​Killmonger, que é de fato o que interessa na história, logo decide buscar seu espaço, motivado por uma raiva desenfreada por T’Challa e seu falecido pai, a qual é relevada mais tarde e o por quê. E, diferentemente das motivações de muitos vilões, ele tem uma causa que pode ser considerada nobre, em busca do que acredita ser justiça – pois foi assim que ele aprendeu -, e embora tenha uma visão deturpada sobre isso, as vezes se mostra mais como uma espécie de anti-herói amargurado com o passado, do que um vilão em si. Ele não deseja o mal para sua nação, porém pelo que carregou durante sua vida, acredita que os fins justificam os meios. Aqui é interessante notar que, não somente alguns personagens aprovam sua motivação, mas também levam muitos espectadores a pensar sobre qual o melhor caminho.

Killmonger - Pantera Negra (2018)
(IMDb/Reprodução)

Como vemos em boa parte da projeção, o povo de Wakanda, especialmente na liderança de T’Challa, são levados a viver em paz – e em alguns momentos de forma egoísta -, lutando apenas quando necessário, normalmente para proteger o país. E exatamente por essa linha, após a ascensão de Killmonger, há uma divisão entre os que decidem seguí-lo, e os que lutam por Wakanda, mantendo suas essências.

O filme contou com uma direção e um roteiro sólido, simples, mas eficaz, o mais maduro do Universo Cinematográfico Marvel até o momento. A rejeição de Killmonger, cuja história emocional e devastadora dá ao filme mais fricção. Pantera Negra gira em torno de um drama familiar, de pai e filho – um assassinato, uma busca de poder e um herdeiro um tanto relutante – envolvendo questões de ascendência, identidade, e questões sobre o novo mundo e o antigo. O design de produção de Beachler também ficou muito bom, fazendo com que a arte de Jack Kirby pudesse saltar dos quadrinhos para as telas. Até mesmo alguns veículos são idênticos aos desenhados por Kirby.

O elenco extraordinário contribuiu com brilhantes atuações, vindo tanto das estrelas principais, quanto dos personagens secundários – principalmente as femininas -, que roubam a cena em diversos momentos.

Dora Milaje - Pantera Negra (2018)
(IMDb/Reprodução)

Michael B. Jordan, em seu provável melhor papel até hoje, fez um espetáculo de antagonismo e protagonismo. Chadwick Boseman como T’Challa entrega um homem em um jornada não para se tornar um super-herói, mas para se tornar um rei e aprender a tomar decisões difíceis em prol da sua nação.

Sem contar a excelentes performances de Letittia Wright como a divertidíssima, carismática e inteligente Shuri, Lupita Nyong’o, como Nakia, que se torna o par romântico do Pantera, mas além dessa ‘função’, é decidida, de personalidade forte e marcante, e Danai Gurira, conhecida por viver Michonne em The Walking Dead, líder da guarda-real do rei de Wakanda, com expressões e cenas de lutas impressionantes.

Nakia e Shuri - Pantera Negra (2018)
(IMDb/Reprodução)

O ponto fraco de Pantera Negra ficou por conta dos efeitos especiais, principalmente nas partes que foram exigidas o uso de CGI – Imagens geradas por computador – que em vários momentos não são orgânicas, dando aquela sensação de algo bem artificial; seja na luta final, nas naves – onde é mais nítido – ou em algumas partes de Wakanda, mas no geral não atrapalhou em seu desenvolvimento.

A trilha sonora também contribuiu bastante para o desenvolvimento das cenas, e foi uma surpresa para um filme de super-herói, com uma tendência tribal, tambores, hip hop e acordes bem altos, executados de uma forma pausada. Além do álbum composto pelo Kendrick Lamar se encaixando nas cenas – algumas não tinham necessidade do uso, mas aparentemente fizeram questão de inserí-las.

E assim, Pantera Negra nos é apresentado como o primeiro filme de herói de 2018, com representatividade, roteiro maduro, um modo diferente de contar uma história e nos trazer uma nova parte do Universo Marvel, com personagens extremamente bem desenvolvidos e uma expectativa por mais do herói T’Challa.

REVER GERAL
Pantera Negra - Crítica